22 de fevereiro de 2017

Histórias de Sucesso

A Alpargatas - Presidente Fernando Tigre


HISTÓRIA ALPAGARTAS
FERNANDO TIGRE: SUA CARREIRA, A ALPARGATAS E O CASE DE SUCESSO
Ana Paula Ruiz

O jornal Carreira & Sucesso entrevistou o presidente da Alpargatas, Fernando Tigre para conhecer um pouco mais sobre sua carreira e o sucesso da empresa que dirige desde 1997.
A entrevista contou com a participação de Arnaldo de Mello Franco, diretor de Recursos Humanos da São Paulo Alpargatas, e de Silvana Case, vice-presidente executiva do Grupo Catho.

A São Paulo Alpargatas fechou o ano de 2002 com 120 milhões de reais em caixa. O saldo vai financiar o crescimento da companhia nos próximos quatro anos. Em três indicadores, a empresa superou as médias obtidas desde 1998. O faturamento, que crescia 9% ao ano, foi 11% maior do que o do ano anterior, totalizando 805,3 milhões de reais. Fernando Tigre acredita que o saldo de 2002 foi positivo: "Comparado ao de outras empresas, o ano foi bom; comparado ao que esperávamos, poderia ter sido melhor."

FERNANDO TIGRE POR ELE MESMO

A carreira
Carioca, engenheiro mecânico, pós-graduado em Economia.
Iniciou sua carreira na GE – General Electric Company, onde atuou durante 14 anos; começou na área Industrial, ocupando vários cargos, até chegar à gerência industrial de uma fábrica da empresa no Rio de Janeiro.
Posteriormente, foi para a área de Medical System, passando a atuar com vendas e serviços, e não mais na área Técnica; tem como uma de suas características a atuação em áreas distintas.
Saiu da GE, mas ainda tem uma paixão muito grande pela empresa por ter sido lá onde se deu sua formação básica. "Jack Welch, ex-CEO da empresa, é meu guru até hoje".
Foi para a Westinghouse para atuar como diretor-superintendente da Eletromar, empresa do grupo. Na época, a empresa perdia dinheiro e tinha um quadro de funcionários muito grande; durante quatro anos, a companhia perdeu 4 milhões de dólares por ano. Permaneceu na empresa dois anos; no primeiro, ela empatou, e no segundo, ganhou 1,50 milhão de dólares; no ano posterior, a empresa ganhou 4 milhões de dólares. "Foi uma experiência muito rica", afirma.
Até que recebeu um convite da Alcoa Alumínio e veio para São Paulo, onde atuou durante dez anos. Iniciou na divisão de Extrudados, que faturava 40 milhões de dólares e perdia 4 milhões de dólares. Três anos após sua chegada, a unidade faturava 120 milhões de dólares e ganhava 20 milhões de dólares. "Foi muito positivo: fomos de um 'weak number two' para um 'strong number one' no mercado."
Ficou três anos nesta divisão, passando para Primários, que era o maior investimento da empresa. "Também fomos de patinho feio a cisne; tive muito orgulho desta mudança. Quatro anos depois, revertemos o quadro."
Saiu da empresa em 1996 e foi para a Jarí Celulose. "A experiência foi gigantesca. É difícil explicar o que é o Jarí - é uma nação no meio do Amazonas."
Conseguiu em quase dois anos de atuação baixar os custos e obter lucro pela única vez na história.


A experiência na Alpargatas
Iniciou em 1997 e deixará a presidência da empresa no final do ano, porém, continuará com presidente do Conselho da mesma.
Quando chegou, a companhia perdia dinheiro, as ações estavam em baixa - a perda chegava a 70 milhões de reais. Hoje, a empresa está saudável, obteve faturamento de 800 milhões de dólares em 2002 e, segundo Fernando Tigre, teve a conquista mais importante: um astral muito bom. "A Alpargatas é uma empresa sã, tem uma equipe excelente e um único problema: ser pequena para o padrão mundial, ou seja, precisa crescer muito. Hoje, exportamos marca, e não produto; exportamos Havaianas, e não sandálias de borracha."


A empresa mais "apaixonante"
"Tive várias paixões na minha vida profissional, e a Alpargatas é, sem dúvida, a empresa mais rápida e mais dinâmica em que trabalhei. Meu desafio é manter pessoas competentes e motivadas, contratar profissionais ainda melhores e não parar de investir em qualidade. A importância da empresa é muito maior do que o tamanho dela."


O ponto fundamental da sua carreira
"Se eu tivesse que escolher o ponto mais importante da minha trajetória profissional, o termo correto seria 'equipe'. Tenho na Alpargatas a melhor equipe do Brasil, sem dúvida alguma. Acredito que o que faz a diferença são as pessoas; o que vem depois, trocamos, compramos, consertamos."


O que significa ser eleito o Executivo de Valor, pelo jornal Valor Econômico
Fernando Tigre foi eleito por três anos consecutivos, o que demonstra um grande reconhecimento pelo seu trabalho à frente da empresa.
Ele comenta que no primeiro ano não falou muito sobre o assunto, até que um dia foi visitar a fábrica da empresa em Manaus e uma funcionária estava com uma revista com sua foto na capa. "Ela me pediu para tirar uma foto ao seu lado para mostrar a sua família como ela era importante por trabalhar na Alpargatas e por me conhecer."
Também ficou contente por todos os funcionários da Alpargatas, pois percebeu o quanto era importante para todos e que eles tinham orgulho do presidente da empresa como os filhos têm de seus pais.
"Sempre coloco uma pitada de emoção em tudo o que faço, e acredito que quem quer fazer bem, supera tudo."


O dia-a-dia
Seu tempo é muito escasso e, às vezes, almoça com seus diretores para tratar de assuntos burocráticos.
Suas paixões: "Jogar futebol e andar de barco, duas coisas às quais não tenho muito tempo para me dedicar", diz Fernando Tigre.
Participa de alguns Conselhos de empresas, o que torna o seu dia-a-dia ainda mais corrido:
- presidente do Conselho da Santista Têxtil
- membro do Conselho da Camargo Corrêa
- membro do Conselho da Alcoa
Na sua opinião, vê menos clientes e visita menos fábricas do que deveria.


Vantagem e desvantagem do sucesso
Fernando Tigre acredita que a desvantagem do sucesso é a dificuldade de gerenciar o tempo. "Não concilio tão bem quanto gostaria minha vida profissional e pessoal."
Como principal vantagem, sua realização profissional e poder contribuir para o bom desempenho das empresas por onde passou, formando equipes motivadas. "É gratificante ver a empresa da qual sou presidente vencer, liderando times vencedores."


O que teria feito diferente na sua carreira profissional se pudesse voltar no tempo
"Quando estava na GE, recebi uma proposta para trabalhar nos Estados Unidos mas, na mesma época, meu chefe me promoveu para um cargo muito alto aqui no Brasil, e fiquei em dúvida sobre o que fazer. Era uma posição de gerência com apenas 27 anos de idade, para substituir uma pessoa de 60 anos - acabei ficando no Brasil. Hoje, creio que teria arriscado, aceitando o convite para ir para o exterior. Se meu filho estivesse nessa situação hoje, o aconselharia a ir."


O futuro
Continuar no Conselho da Alpargatas e da Santista Têxtil e dedicar mais tempo ao Conselho da Camargo Corrêa onde será presidente da Camargo Corrêa Metais e Cimentos - estes são os planos de Fernando Tigre para o futuro.

A ALPARGATAS

A Alpargatas foi a primeira empresa a fazer o índigo nacional e criou as sandálias Havaianas. Podemos dizer que este é um lema da empresa: procurar sempre inovar?
"No nosso negócio, inovação é sobrevivência. Todos usamos, no mínimo, um calçado, e precisamos que as pessoas usem mais calçados.
Antigamente, as sandálias Havaianas eram voltadas à classe C. Antes da minha chegada na empresa, foram criadas as Havaianas de uma cor só (as de antes, eram brancas com as tiras coloridas, e as pessoas viravam as tiras para que as sandálias ficassem de uma só cor). A Alpargatas demorou dez anos para se convencer a criar as Havaianas de uma cor só. Foram criadas, então, quatro cores da sandália monocolor, dando origem à Havaiana Top. Hoje, são 13 cores de Havaianas Top, além de vários padrões.
Percebemos, então, que teríamos que inovar sempre.
Hoje, as Havaianas atravessam todas as classes sociais, de A à E. A idéia é fazer com que as mulheres queiram ir à praia e à piscina com uma Havaiana combinando com cada um de seus biquinis.
Hoje, vendemos quase 120 milhões de pares de Havaianas ao ano e foi a inovação que nos possibilitou alcançar todas as classes sociais, por isso o slogan 'Todo mundo usa'.
Não adianta perguntar o que o cliente quer, mas sim descobrir o que ele ainda não sabe que quer, pois se fizer a primeira pergunta, provavelmente a resposta será 'preço' e 'prazo'. Porém, o que ele não diz querer é a chave do sucesso."


A Alpargatas surgiu em 1907, com outro nome: Fábrica Brasileira de Alpargatas e Calçados. O que a empresa produzia na época?
"Encerado Locomotiva, que vemos por aí nos caminhões, e Alpargatas Roda, um sapato de tecido com solado de corda, que ficava pendurada nos armazéns."


Como e por que se deu a compra da Jeaneration, em 1975?
"A Jeaneration foi uma tentativa de criar algo semelhante à GAP americana, mas tivemos algumas dificuldades, culminando no fechamento da marca como loja.
A Jeaneration era uma marca voltada à classe média, e foi difícil competir neste mercado. Creio que não soubemos inovar na velocidade necessária."


Qual foi a intenção do licenciamento da Timberland, em 1995?
"A Alpargatas perdeu a licença da Nike em 1995. Considerávamos importante manter a ligação com uma marca internacional. Então, vieram os licenciamentos da Timberland e da Mizuno. A Timberland é uma das marcas internacionais mais sensacionais que conheço, mas reconhecemos que ela tem um preço alto para a média dos consumidores brasileiros. Começou sólida, porém devagar no nosso mercado. Perdeu dinheiro durante algum tempo, mas agora já começou a empatar. Hoje, 85% dos produtos vendidos no Brasil são fabricados aqui, e a marca tem um bom nome."


Quais são os produtos que a Alpargatas produz hoje?
"A Alpargatas é a empresa que tem mais marcas registradas no INPI - Instituto Nacional da Propriedade Industrial. Somos os maiores fabricantes e comercializadores de tênis do Brasil."
As principais marcas são:
1º - Havaianas – "Todo mundo usa" -> carro-chefe
2º - Rainha – "Esporte no limite do prazer" -> segunda marca mais vendida e a que tem menos rejeição no Brasil
3º - Topper – "Futebol é coisa séria" -> terceira marca mais vendida; 90% da linha é futebol e patrocinamos vários clubes com a marca
4º - Mizuno – "Serious performance" -> quarta marca mais vendida e a marca internacional (japonesa) mais vendida no Brasil atualmente; é a melhor marca do mundo para tênis de corrida
5º - Conga – "Conga é 10" -> o Fusca da marca, ou seja, o de hoje é diferente do antigo, mas é inconfundível


Hoje, as Havaianas são vendidas em grandes magazines e lojas de grife na Europa. A empresa é líder nos mercados de sandálias e calçados esportivos?
"A empresa é líder neste segmento, sim. E batemos vários recordes de vendas. No ano passado, vendemos 116 milhões de pares de Havaianas, sendo 5 milhões exportados para 53 países. O país que mais compra Havaianas hoje é a Austrália, seguido pelo Japão, Estados Unidos e Colômbia. Na Europa, quem mais compra é a França."


O que significa ter a Alpargatas entre As 100 Melhores Empresas para se Trabalhar, segundo a Revista Exame?
"Muito. Nós já recebemos o título uma vez e estamos concorrendo novamente neste ano. Esperamos ganhar de novo, porém, temos que trabalhar muito para isso, sempre para tratar cada vez melhor nossos funcionários. Aqui na empresa, temos três valores: ética, respeito às pessoas (somos reconhecidos como uma das empresas mais seguras do Brasil, sem atacar o meio-ambiente) e accountability."


A Alpargatas tem programas de responsabilidade social?

"Temos o Instituto Alpargatas, criado em janeiro de 2003, para melhor direcionar os investimentos da empresa na comunidade onde atua. Hoje, o Instituto tem foco na educação pelo esporte. Elegemos a cidade de Santa Rita – PB, uma das cidades que têm o menor índice de desenvolvimento humano do país, para investir. Pretendemos levar as crianças para a escola, promovendo a prática de esportes ao nosso público-alvo, que tem de sete a 17 anos. Atuamos nas cidades onde estão localizadas nossas fábricas. Também trabalhamos com o objetivo de definir melhor as doações da Alpargatas, principalmente a doação de produtos, além de trabalhar fortemente na linha do voluntariado. Fizemos uma pesquisa interna e percebemos que o voluntariado já é bem praticado na empresa, e que somente precisa ser estimulado para se caracterizar como um dos braços do Instituto."


Como a empresa investe em treinamento e capacitação profissional?
"Temos um programa de desenvolvimento gerencial chamado TOP 6, que atua em nível gerencial, investindo na melhoria das competências individuais. Para o nível operacional, temos o Centro de Capacitação e Desenvolvimento, localizado no Nordeste, que visa desenvolver os operários para trabalhar com melhor desempenho. No nível educacional, temos uma política de incentivo que patrocina 50% de cursos de graduação, pós-graduação e MBA para todo funcionário interessado em estudar."
A empresa também investe no programa Caminhar e Aprender, construindo escolas em todas as fábricas com o objetivo de eliminar a carência do Ensino Fundamental para a classe operária, com diploma reconhecido pelo MEC - Ministério da Educação e Cultura, correspondente ao 1° e 2° Graus."


Existe algum programa de participação nos resultados da empresa?
"Sim, para todos os níveis."
Para o nível gerencial, existe um programa de bônus bastante competitivo.
Para funcionários mensalistas e horistas, existe o PPR, que é a distribuição de resultados com base no lucro operacional da empresa, negociado com o sindicato em todas as localidades."


A Alpargatas se preocupa com a qualidade de vida dos funcionários?
"Promovemos algumas ações com participação dos funcionários."
Todos os meses, são organizadas palestras, cursos, atividades de marketing pessoal, caminhadas, passeios, visitas a escolas e creches e aulas de artesanato e modelagem. Todas as atividades são abertas e não-obrigatórias.
"Também existe o Mizuno Runners Team, um grupo de pessoas que corre com o patrocínio da marca. Estimulamos muito a prática de esportes - temos campeonatos internos de futebol, vôlei e tênis – e contamos com uma forte participação dos funcionários."
Todos os anos, a empresa organiza a Semana da Saúde, com diversas especialistas médicias para fazerem exames nos funcionários e ministrarem palestras.
"Contamos ainda com serviço odontológico móvel que visita às comunidades com regularidade."


Como funciona a comunicação interna na Alpargatas?
A melhor comunicação é a direta, feita pela supervisão e pela liderança, mas existem várias outras formas, como a via intranet e o tradicional quadro de avisos.
O A palavra é sua é um veículo que permite que qualquer funcionário se comunique com a empresa sem se identificar.
O jornal interno Alpargatas Hoje, além do Balanço Social e do DDS – Diálogo Diário de Segurança, onde supervisores conversam com seus subordinados sobre segurança do trabalho, independentemente de ter ocorrido algum acidente, ou seja, tem finalidade preventiva.
A Alpargatas conta, ainda, com um programa de reconhecimento, o Destaque, e um forte programa de sugestões, a Ciranda de Idéias.


"É a soma destes pontos que faz com que eu admire e respeite muito a Alpargatas", afirma Fernando Tigre.



* Ana Paula Ruiz é editora do jornal Carreira & Sucesso. 10/04/2006 (data desta publicação)

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