22 de fevereiro de 2017

Histórias de Sucesso

Bill Gates, o Monopolista Esclarecido


Bill Gates, o monopolista esclarecido
O fundador da Microsoft moldou a indústria de computadores, mudou o mundo e ganhou bilhões. Agora só quer fazer o bem.

Era uma vez um menino mimado e inteligente que cresceu para tornar-se o homem mais rico do mundo, à frente da empresa mais lucrativa do planeta, líder do setor mais dinâmico da economia. Eis, em pouquíssimas palavras, um resumo biográfico de Bill Gates, o homem que se afasta nesta semana dos negócios diários da Microsoft para dedicar-se em tempo integral ao trabalho na Fundação Bill & Melinda Gates, a mais rica organização filantrópica do mundo, criada por ele há oito anos.

Essa metamorfose, aos 53 anos, já fora anunciada em 2006 e deve ter lugar sem sobressaltos. A empresa que Gates fundou em 1975 fatura US$ 60 bilhões por ano, seus lucros crescem acima de 20% a cada fechamento de balanço e a direção do negócio está entregue a um vendedor feroz (Steve Ballmer) e a um programador talentoso com ares de visionário digital (Ray Ozzie). A dupla talvez seja capaz de conduzir a companhia para além da arrebentação tecnológica criada pela internet.

Gates já fez sucesso como empresário – é difícil lembrar de um sucesso maior que o dele – e tem agora a chance de provar-se como empreendedor social. Se tiver nessa área a metade do impacto que teve no mundo da tecnologia, poderá mudar (novamente) a face do planeta. Dito isso, há questões de legado a esclarecer. A principal delas, que vai se enroscar à biografia de Gates pelas próximas décadas: ele é o responsável pela revolução dos microcomputadores ou foi, na verdade, um monopolista que atrasou a evolução digital?

Quando Gates lançou-se à sua aventura empresarial, aos 21 anos, o único computador pessoal que existia no mundo era uma gambiarra chamada Altair 8800 – um kit de montagem que se recebia por correio e custava US$ 439. Gates escreveu o primeiro programa para esse computador, firmou um contrato de royalties com o fabricante e criou, com isso, um modelo de negócios que se tornaria sua marca registrada (e origem de sua fortuna atual de US$ 58 bilhões).

Pouco se fala sobre isso, mas Gates praticamente inventou a propriedade intelectual do software. Em 1976, quando os nerds que usavam o Altair começaram a copiar e trocar programas entre si, Gates escreveu uma corajosa carta aberta chamando-os de ladrões. Nela, explicava que os criadores de programas tinham o direito de ter seu trabalho remunerado tanto quanto os fabricantes de hardware. Esse documento já foi chamado de Carta Magna da indústria de software, em alusão ao documento fundador da monarquia constitucional inglesa. Se o jovem Gates não tivesse tomado essa posição, agindo com determinação e energia para defender os direitos da Microsoft, é possível que o hábito de copiar programas prevalecesse, criando no software uma situação similar àquela que existe hoje na música com os downloads gratuitos.

O universo da computação como o conhecemos começou em 1981, quando a IBM lançou o famoso IBM-PC. Essa máquina transformou os computadores pessoais em objetos corporativos respeitáveis e criou uma linhagem da qual descendem diretamente 90% do 1 bilhão de computadores em uso no planeta. O programa básico dos PCs – chamado DOS – foi fornecido pela Microsoft, que estabeleceu com ele um domínio férreo sobre a computação empresarial e doméstica. O DOS (que evoluiu para tornar-se o Windows) é um sistema operacional, software que faz a ligação entre a máquina e os programas que as pessoas usam. Como tal, ele define os limites do computador.

Essa posição central no mundo dos PCs deu à Microsoft uma vantagem única, que se provaria insuperável, sobre todos os demais produtores de programas – vantagem que Gates lutou com unhas e dentes para preservar. Ele investiu com sucesso na produção de programas que caíram no gosto das pessoas, inventando e definindo um mercado inteiramente novo. Mas, ao mesmo tempo, recusou informações técnicas para os programadores de empresas rivais e empurrou sobre os fabricantes de PCs contratos draconianos para a instalação do DOS e do Windows. Essas atitudes truculentas tornaram a Microsoft uma das mais lucrativas empresas do mundo, atraíram a atenção e a punição dos órgãos de controle de concorrência e deram a Gates a reputação de monopolista inescrupuloso. Mas também criaram uma padronização universal – o mundo todo usa PCs, Windows, Office e Internet Explorer – que ajudou a tornar real a visão de Gates de colocar “um computador em cada mesa e em cada casa”. Sem a brutalidade e o gênio de Gates para os negócios, talvez não houvesse padronização nenhuma.
Foi a disseminação dos PCs baratos (possível pela padronização) que estabeleceu a base da revolução da internet que está em curso neste momento – e que tem a capacidade de tornar o monopólio da Microsoft irrelevante. Na internet, se você usa Windows, Leopard (da Apple) ou Linux não faz diferença, porque a interface com o universo, aquilo que dá acesso a todas as informações e serviços, é a própria rede. Ela é o sistema operacional do século XXI.

De certa forma, Gates sai da cena digital na hora certa. Ele ainda vai dedicar 15 horas por semana à Microsoft, como presidente do conselho da empresa, mas a responsabilidade de conduzir o negócio não será mais sua. Seria demais esperar que o nerd mais famoso do planeta, agora pai de duas meninas e um menino, dirija a Fundação Bill & Melinda ao mesmo tempo que salva a Microsoft da obsolescência. Famoso pela inteligência e pela dedicação, assim como pela brutalidade com que julga o trabalho dos outros, Gates faz as coisas acontecer. Ele sempre soube antecipar o próximo passo no mercado de PCs, e isso garantiu a liderança da Microsoft por 30 anos. Mas, no mundo da internet, no qual se concentra agora a competição, Gates parece estar perdido. Foi superado por jovens como Sergei Brin e Larry Page (do Google) e Mark Zuckerberg (do Facebook).

Na filantropia, porém, ninguém lhe faz sombra. A Fundação Bill & Melinda, com sede em Seattle, tem US$ 37 bilhões em caixa e mais, muito mais a caminho, resultado de uma transfusão bilionária do investidor Warren Buffett e do aporte de ações da Microsoft feito pelo próprio Gates. Criada em 2000, a instituição já doou US$ 14,4 bilhões, mais que a Fundação Rockfeller em 95 anos de existência. Gates e a mulher, Melinda, com quem está casado há 12 anos, têm como metas reduzir substancialmente a pobreza no mundo, melhorar a saúde global pela eliminação de doenças como a malária e reerguer a educação pública americana. É muita ambição, qualquer que seja o orçamento.

Não se sabe o que Gates vai fazer no dia-a-dia da fundação. Especula-se que vá assumir sua direção estratégica. Ele é um organizador enérgico e criativo, mas a tarefa que tem pela frente é imensa. Nessa segunda encarnação como filantropo 2.0, terá de lidar com problemas sociais e biológicos intratáveis, numa escala que ele não experimentou na Microsoft. Bem-sucedido, vai refazer sua biografia de ogro corporativo e abrir uma avenida existencial para pessoas como ele. Os bilionários cansados da rotina dos negócios podem deixar o leme das empresas, doar seu dinheiro e mergulhar – ainda em idade produtiva, com talento e energia intactos – na tarefa de fazer o bem. Seria outra revolução de costumes a ser creditada na conta de Bill Gates.

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