22 de fevereiro de 2017

Histórias de Sucesso

Bom de Vera, esta também é uma boa História


Bom de verdade
Conheça Edson Braga Filho. Sem estudo, ele criou a maior rede de confeitaria do Nordeste a partir dos salgadinhos feitos pela mãe.
Se há algo que o empreendedor cearense Edson Braga Filho, 30 anos, sabe fazer como ninguém é acreditar em seu instinto. Sócio majoritário de uma das redes de confeitaria que mais crescem no Nordeste, a Bom de Vera, ele é capaz até de dispensar um dos maiores bancos de investimento do Brasil se houver conflitos de interesse. Em 2003, o Pactual investiu 3,4 milhões de reais na Bom de Vera e se tornou seu sócio, com 34% das ações. Mas, no final do ano passado, os planos de Edson bateram de frente com a estratégia do banco. O cearense, que completou apenas o Ensino Médio, tinha um projeto para criar uma linha de salgadinhos e doces para serem vendidos em supermercados e para distribuidoras de alimentos. Mas o Pactual -- que no início deste ano, segundo boatos do mercado, estaria sendo vendido para o Goldman Sachs -- foi contra. Edson não se intimidou. Aceitou a saída do banco, apostou na sua idéia e foi buscar um novo parceiro. Junto com Sérgio Zuanella, seu novo sócio, este ano vai construir uma fábrica em Recife, que custará 12 milhões de reais, e vai produzir a nova linha de produtos. A expectativa é que em 2006 ela já esteja faturando algo em torno de 25 milhões de reais. "E eu quero mais. Quero ter a maior rede de confeitarias do mundo", diz Edson.
Ok, você pode duvidar, afinal a Bom de Vera pretende se igualar, por exemplo, à rede americana de cafés e petiscos Starbucks, que fechou 2004 com faturamento líquido de 5,3 bilhões de dólares e 9 000 pontos-de-venda em 34 países. Mas Edson não se cansa. Seis anos depois de abrir a primeira loja numa gestão profissionalizada, a marca tem nove estabelecimentos próprios e 11 franqueados, espalhados por Fortaleza, Juazeiro do Norte, Natal e Recife. Em maio, a empresa deve abrir uma franquia em Vitória (ES), primeira investida fora do Nordeste. A receita da rede de franquias é de 15 milhões de reais por ano. "Já começamos os contatos para levar nossos produtos para Argentina, Portugal e Estados Unidos nos próximos dois anos", diz o sócio Zuanella.
Para se manter nesse ritmo, Edson é autodidata e vai atrás de quem possa incrementar alguma novidade ao que já conhece. É por isso que se tornou um empreendedor admirado. No ano passado, foi um dos vencedores do projeto Empreendedores do Novo Brasil, desenvolvido por VOCÊ S/A em parceria com a ONG Instituto Empreender Endeavor. "Ele é sério, não tem papas na língua e tem um grande poder de realização", diz Gabriel Perez, analista da Endeavor. Até quem deveria encará-lo com receio o admira. "Ele é um concorrente ético, tem bons preços e produtos de qualidade", diz Natali Albuquerque, master franqueada do Habib's em Fortaleza.
Edson também é um leitor compulsivo de obras que prometem ajudá-lo a entender melhor o mundo dos negócios. Seu livro de cabeceira é A Lei do Triunfo, de Napoleon Hill (Editora José Olympio), sobre o sucesso no mundo dos negócios, e agora está lendo As 48 Leis do Poder, de Robert Greene (Editora Rocco), uma versão moderna de O Príncipe, de Maquiavel. Quem tenta segurar toda a energia desse empreendedor entusiasmado são seus pais, Vera e Edson Braga, ambos da classe média de Fortaleza. "Meu filho é muito dinâmico e às vezes é difícil de segurá-lo", diz Edson pai. O nome Bom de Vera foi uma invenção sua. No Nordeste é comum dizer que algo é bom de vera, quando se trata de alguma coisa realmente boa. Para completar, a expressão levava o nome da dona Vera, que começou a cozinhar para fora em 1987. Vera era professora, mas teve de parar de lecionar quando se casou, 36 anos atrás. Quando os dois filhos, Luana e Edson, completaram 10 e 5 anos, Vera achou que já era hora de arregaçar as mangas. "Sempre gostei de cozinhar, mas só fiz alguns cursos de culinária para me distrair", diz. Primeiro foram os biscoitos, vendidos aqui e acolá. Depois vieram as marmitas. Chegou a entregar 58 pratos por dia. Trabalhava 12 horas ou mais. Largou as marmitas e passou a fazer sanduíches, adaptando a garagem de casa em uma pequena lanchonete. Os próprios consumidores começaram a encomendar bolos e salgadinhos, até que um dia um cliente pediu mil salgadinhos.
Até então, Edson, já adolescente, não trabalhava com a mãe. "Ele tinha vergonha", diz Vera. Mas desde os 14 anos ele não dependia dos pais financeiramente. Vendia fitas K7 com músicas para os amigos, organizava festas. Aos 16, depois que terminou o Ensino Médio e se livrou dos olhos atentos dos colegas mais ricos da cidade, achou que já era hora de ajudar a mãe. Passava pano no chão, varria, limpava as mesas. Rapidamente, começou a tomar conta do caixa. "A partir daí, nunca mais controlei o dinheiro", brinca Vera. Seu primeiro investimento foi trocar o balcão.
Com 17 anos, Edson foi emancipado e não parava de ter idéias para a pequena empresa da família. "Um dia cheguei em casa e não tinha mais nada", lembra Vera. Tudo havia sido destruído para que a residência da família se transformasse em um centro de produção, estoque e venda de bolos e salgadinhos. Com o entra-e-sai de pedreiros, sofá, televisão e panelas foram roubados. Sobraram duas redes, onde dormiam Edson pai e filho. A mãe mudou-se para a casa dos pais, e Luana, a irmã, já era casada.
A residência agora tinha dois andares. No primeiro funcionava a Bom de Vera e no segundo morava a família. Não contente, Edson comprou a casa vizinha e ergueu um prédio de três andares, com escritório, auditório, sala de treinamento e um restaurante. Nesse tempo, em 1994, Edson encheu os pulmões e foi ao Banco do Brasil pedir um empréstimo, porque o capital de giro tinha ido para o espaço. Cara a cara com o gerente e com 19 anos, Edson pediu e levou para a empresa os 250 000 reais emprestados.
A vontade de ver o negócio da família crescer era tanta e o medo de perder tudo era tão pequeno que Edson continuou arriscando. Um dia, ele teve a idéia de fazer um anúncio na Rede Globo local. O investimento equivalia a 45 dias de faturamento da empresa. "Sempre fui muito atrevido", diz. Algumas vezes, o atrevimento custou caro. Em um Natal, todas as rádios locais anunciaram que o consumidor poderia ir à loja que lá estavam todos os produtos disponíveis, feitos na hora. Empolgados com o que ouviam, os consumidores foram até a confeitaria, que ficou lotada. O problema é que Edson não tinha se preparado e o estoque logo ficou a zero. "Eu ouvia cada palavrão cumprido!", diz Vera. Foi um erro que poderia ter abalado a empresa para sempre. "Mas a gente era muito pequeno e era visto como coitadinho. Então, os consumidores perdoaram. Se isso acontecesse hoje, estaríamos perdidos", diz Edson. Mas ele gostou de ver sua loja cheia de consumidores. Tanto que a Bom de Vera é o maior anunciante da região em outdoors há quatro anos seguidos. Todos os meses são 50 placas em Fortaleza, 40 em Recife, 30 em Natal. Fora os encartes, inserção três ou quatro vezes por ano na tevê e os anúncios em rádio. Só em 2004 a empresa investiu 800 000 reais em divulgação.
Mas nem tudo é tão perfeito assim. Edson já fez algumas bobagens nesses últimos anos. A diferença é que ele sempre transforma um fracasso em uma grande sacada. Certa vez ele viu em uma feira de equipamentos uma máquina para fazer comida japonesa. A mãe foi contra porque queria que a empresa continuasse com a produção manual. Ele comprou a máquina escondido e teve uma surpresa. O equipamento não funcionava. Foi preciso adaptá-lo para fazer coxinha e risólis. Mesmo assim, quando ficou pronta, a máquina ficava ociosa a maior parte do tempo: só funcionava durante meio expediente por semana, em função da falta de demanda. O jeito era fazer uma promoção para aumentar as vendas e justificar o investimento. Edson inventou que a empresa estava completando dez anos para que os consumidores não achassem que ele estava falido. As vendas superaram as expectativas. Outro marco foi a Copa do Mundo de 1994, quando as pessoas tomam mais cerveja e poderiam comer mais salgadinhos do que normalmente comeriam. Mas como convencer os motoqueiros a trabalhar durante os jogos? Com prêmios e bonificações. Resultado: os 60 motoqueiros entregaram 2 milhões de salgadinhos. Como Fortaleza tinha na época 2 milhões de habitantes, foi um salgadinho para cada morador, o que gerou uma ampla campanha de marketing.
Vez ou outra o erro é incorrigível. No prédio que Edson ergueu ao lado da primeira loja ele instalou um restaurante, que nunca foi para frente. Freguês até tinha, mas o restaurante demandava muito tempo. Entre algo incerto e o crescimento da Bom de Vera, Edson ficou com a segunda opção. "Com oito meses disse para mim mesmo: 'Esse negócio vai me quebrar'. Antes que isso acontecesse mandei parar tudo." Cadeiras, mesas, talheres e toalhas estão no estoque até hoje.
Mas os piores erros de Edson são outros dois. Ele é extremamente centralizador. Nada acontece na empresa sem que ele saiba. Às vezes sua irmã, Luana, que cuida do financeiro da Bom de Vera, fica sabendo dos planos dele por acaso. Edson reconhece esse defeito, mas também diz que já melhorou bastante, principalmente com a entrada do Pactual no negócio, quando conseguiu dividir as responsabilidades. Para controlar tudo, ele trabalha duro, nunca menos de dez, 12 horas por dia -- de onde vem seu segundo erro. Sobra pouco tempo para curtir os três filhos -- Victória, 4 anos, Maria Clara, 2, o pequeno Edson Neto, 1 -- e a mulher, Mariana. "Mas o domingo, depois que eu passo na loja, é deles", diz.
A centralização é relativamente comum entre os donos de empresas menores. "O empresário faz tudo e isso tende a levar a empresa ao colapso", afirma o consultor Fernando Dolabela, especialista em empreendedorismo, de Belo Horizonte (MG). Dolabela diz ainda que, por isso, é comum os empreendedores não tirarem férias, não terem fim de semana e viver ligados à empresa 24 horas por dia. Edson, por exemplo, tem dois celulares, cujas contas chegam a 1 200 reais por mês. "Enquanto você conversa com ele, ele está pensando em outras coisas", diz Vera. Talvez mais do que crescer e multiplicar seus negócios, o maior desafio de Edson seja curtir mais a família e os amigos. O resto ele tira de letra.
Retrato da Bom de Vera
* Faturamento da rede de franquias: 15 milhões de reais
* Número de lojas próprias: 9
* Número de lojas franqueadas: 11
* Número de funcionários (fábrica e lojas próprias): 120
* Investimento na nova fábrica: 12 milhões de reais
* Número de funcionários que serão contratados na nova fábrica: 200
* Expectativa de faturamento com a nova fábrica: 25 milhões de reais (em 2006)
Fonte: empresa

Revista Você S.A.
Autor: Anne Dias e Ricardo Damito

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