22 de fevereiro de 2017

Histórias de Sucesso

Como reinventar o chocolate


O sabor do chocolate traz para Alexandre Tadeu da Costa a agradável lembrança do dever cumprido. Foi essa a sensação da primeira entrega de ovos de Páscoa, que produziu de maneira artesanal, marcando o início de sua jornada empreendedora em 1988. Um ano depois, empolgado com o sucesso ele criou a Cacau Show, especializada em chocolates finos. Hoje, é uma das maiores indústrias e redes de franquias do país, e é com essa satisfação pelo trabalho bem feito que ele acorda todas as manhãs.

O despertar dele para o empreendedorismo aconteceu cedo. Aos 15 anos já não tinha mais dúvidas do caminho que gostaria de seguir: ter o próprio negócio. A determinação foi motivada pelo ideal de poder tomar as decisões, ter independência financeira e aumentar a sua remuneração. Julgava ganhar muito pouco como auxiliar, função exercida na época em que trabalhava na Mavil's, pequena empresa dos pais, especializada na venda porta-a-porta de diversos tipos de produtos, desde cosméticos e utilidades domésticas até lingerie.

Sem idade suficiente para abrir um novo negócio, começou reativando uma das atividades da empresa familiar que tinha sido interrompida, a distribuição de chocolates. Alexandre escolheu essa linha porque sabia que teria boa comercialização. Tinha conhecimento de que as vendas realizadas pelos pais, na época, não paravam de crescer, o que acabou se transformando em um problema, pois os fabricantes não conseguiam suprir a demanda, motivo da descontinuidade da operação. Tomou cuidado para não cair no mesmo erro, fazendo um planejamento.

Com a lição de casa na ponta da língua, conseguiu US$ 500 de empréstimo de um tio, contatou um fornecedor e preparou o próprio catálogo, que servia de mostruário. Acrescentou um ingrediente: a confusão. Como distribuidor, colocou na sua tabela um tipo de produto que não era mais fabricado. Chegada a Páscoa, começou a vender ovos de chocolate de vários tamanhos e ficou contente por ter recebido de uma só vez um pedido grande. "Solicitei 2 mil ovos de chocolate de 50 gramas e me informaram que o produto nesse peso não existia. Eu havia cometido um equívoco, porque realmente isso não constava no cadastro do fornecedor."

A busca pela superação foi ao mesmo tempo doce e meio-amarga. Para resolver o impasse decidiu produzir a encomenda. Pediu ajuda de uma senhora, amiga da família e moradora do bairro, que fazia chocolates artesanais, para aprender as etapas do processo. Comprou formas, embalagens e quantidades suficientes do produto em barras para derreter e em seguida transformá-lo em ovos de Páscoa. Depois de dois dias de trabalho duro na cozinha de sua casa, estava com tudo pronto para fazer a entrega.

A partir dessa lição, resolveu mudar a estratégia. Com o lucro das vendas ele conseguiu quitar a dívida do empréstimo e no ano seguinte, alcançando a maioridade, abriu a empresa, passando a fabricar o que comercializava. Para a sobrevivência do negócio, decidiu não utilizar mais dinheiro de terceiros ou de financiamentos, mesmo que a caminhada fosse mais longa e demorada. Até hoje, todos os investimentos que fez foi sempre do próprio bolso.

Alexandre fez da empresa um projeto pessoal que foi realizando aos poucos. No início, tinha apenas um funcionário e, a cada ano, com o aumento da demanda e das vendas, contratava mais colaboradores. Costuma formar os funcionários, investindo em cursos de qualificação. "No Brasil não existe mão-de-obra especializada na área. Fazemos um processo de seleção e depois vamos ensinando e lapidando até que aprenda toda a função."

Como ele, a maioria dos colaboradores da gerência começou na empresa colocando a mão na massa e hoje conhece todas as etapas da fabricação do chocolate. O empreendedor continua atuando nas mais diversas atividades da empresa. É claro que, atualmente, menos do que quando começou. "Estou me dedicando mais para a questão estratégica e deixando a produção com pessoas especializadas e de confiança."

Cursando o terceiro ano de Administração, Alexandre adotou uma série de medidas que tornaram a empresa diferente das concorrentes e o ajudaram a ganhar mercado. Primeiro, seguiu a mesma receita que aprendeu dos pais para comercializar o chocolate, através da venda direta. Os resultados surpreendem. Passados 15 anos, mais de 10 mil mulheres vendem, de porta em porta no Brasil inteiro, 184 tipos de produtos como os tradicionais bombons de licor, pastilhas de chocolate com menta e celulares de chocolate ao leite.

Com a Cacau Show consolidada, recebeu propostas de várias empresas varejistas e supermercados para fazer produtos personalizados. Aproveitando a oportunidade, passou a fabricar chocolate para terceiros. Essa foi uma das saídas encontradas para aumentar a produção e diminuir as despesas. "A visão sempre foi diluir os custos fixos. Os salários dos funcionários, por exemplo, não podem onerar a produção."

Em 2001, ele colocou em prática a terceira ação que proporcionou à empresa melhorar o desempenho e crescer geograficamente. A procura pelo chocolate da Cacau Show era tanta que ele decidiu abrir a primeira loja franqueada. Era o que faltava para dar consistência à empresa. A rede é atualmente uma das que mais crescem no país. Em menos de quatro anos, foram abertas 135 lojas pelo sistema de franchising. "A franquia foi a evolução natural das nossas distribuidoras. Nosso sonho e objetivo é ter mil lojas em 2010."

Com o crescimento da empresa também aumentaram as dificuldades, principalmente para a tomada de decisões. Melhorar o controle da gestão era a prioridade naquele momento. Alexandre participou de vários cursos promovidos pelo Sebrae e teve o auxílio de um consultor especializado para pôr a casa em ordem. Mais tarde, o empreendedor também colocou em prática uma quarta estratégia: a distribuição para o varejo. O objetivo era diversificar e oferecer mais uma opção ao mercado, criando a marca de chocolate Gardner. Para 2004, a perspectiva é fabricar 2.500 toneladas de chocolate e crescer 45% em relação a 2003.

O reconhecimento por suas ações veio este ano. Depois de passar por uma rigorosa seleção, Alexandre foi um dos escolhidos para fazer parte do grupo do Instituto Empreender Endeavor, organização sem fins lucrativos que aposta no empreendedorismo inovador como forma de desenvolvimento sócio-econômico. Ele agora vai trocar informações e receber orientações de especialistas de vários setores do mercado. "O importante é aumentar a rede de contatos e aprender com gente de peso."


Revista Empreendedor
Autor: Fábio Mayer

CONTATO
✉ contatos@sitedoempreendedor
✆ +55 55 5555-5555